A areia da praia brilhava. Diamante
fragmentado, tão belo que me fazia querer chorar. Às vezes dava a impressão que
se dissolvia aos poucos e subia no ar, tornando toda a atmosfera por ali
brilhante. O oceano era vermelho, o que lembrou a minha infância por algum
motivo. As ondas estavam fracas, o vento agradável.
O sol brilhava onipotente, irradiando cores
verdes e azuis por todo o céu. Vi os peixes voando em direção ao horizonte sem
fim. Os peixes iam em direção ao Fim do Mundo, onde nenhum homem jamais esteve,
para fugir do rigoroso inverno que se aproximava.
Ou talvez quisessem apenas zombar dos homens,
indo todo ano a um lugar que ninguém conseguiu ir.
Atrás de mim e da minha praia de diamantes, a
cidade nascia cinza e pesada. Rasgando os céus com seus prédios de mais de 300
andares. Milhões e milhões de pessoas se acotovelavam nas calçadas lotadas. Se
você prestasse bem atenção, veria que não havia muitos rostos. Alguns se
repetiam e se repetiam.
Voltei para o meu carro, dei a partida e fui
para casa. O carro era azul, ou vermelho. Talvez fosse preto. Talvez fosse
feito de luz. Talvez fosse um caminhão vindo em minha direção, talvez o
motorista tenha dormido.
Minha “casa” é um cubículo no ducentésimo quadragésimo quinto andar de um prédio antigo no centro da cidade. Minha vaga
no estacionamento fica vinte e seis níveis abaixo do solo. Passo boa parte do
dia no elevador.
Não estou reclamando.
Não tenho muitos amigos, pois os rostos que
se repetem nas ruas me assustam e confundem. Não trabalho, mas tenho muito,
muito dinheiro. Herança talvez. Não moro bem, porque não preciso. Gosto da
praia de diamantes, gosto de dirigir entre os prédios que rasgam o céu e gosto
do som metálico do velho elevador.
Às vezes sinto as pernas trêmulas, sinto o
corpo fraquejar. Deve ser algo no ar. Ou na altura. Talvez aqueles ninhos de
peixe no teto do meu prédio tenham me causado algo. Talvez o motorista tenha
dormido, talvez não. E se eu pudesse desviar? Eu nem ao menos tentei.
Mas não havia razão para isso.
Eu tinha desistido, eu estava tão sozinho que
parecia me afogar em mim mesmo. Eu acelerei. Talvez fosse a luz invadindo o meu
mundo. Talvez fosse a escuridão logo depois. Talvez fosse um sonho. Eu não
quero acordar nunca.
As pessoas vinham me visitar no meu
apartamento muito tempo atrás. Elas perguntavam se eu estava bem, se eu
precisava de algo. Mas eu apenas olhava. Doía. De todas as formas. Mas eu
apenas olhava, sem nunca responder. Talvez eu tivesse roubado o sono do
motorista. Talvez eu devesse mandar uma carta e agradecer.
As pessoas me viram alheio e apático e
pararam aos poucos de me visitar.
Eu estava bem, apesar da dor.
Apesar das flores não chegarem mais e
morrerem, apesar dos cartões sumirem, apesar de todos terem desistido, eu
estava bem.
Da janela do meu apartamento, eu via os
peixes rumando para o Fim do Mundo, mas os homens que cuidavam do prédio não
viam. Eu mostrava, eu gritava e a dor aumentava. Então eu gritava mais.
Todo dia que eu gritava, eu sentia meu corpo
fraco.
Como não podiam ver?
Eu pulava nas paredes, eram macias e me
absorviam aos poucos. Um sonho. Uma mágica. Era a perfeição mais absoluta que
alguém poderia sentir, mas isso morreu. Eu sentia uma força em minhas mãos e pés.
Algo que me impedia de pular, algo que me impedia de ser feliz.
Então eu saía com meu carro e ia até a praia.
Eu saía com meu carro e via um caminhão na contramão. Talvez o motorista
tivesse dormido, talvez tivesse morrido. Eu saía com meu carro e não desviava.
O meu carro azul, o meu carro vermelho, o meu
carro de luz, escuridão e dor.
O meu carro se espatifando em quatorze mil
partes.
A minha vida acabando.
Eu via o mar, eu via as pessoas. Iguais, como
se eu imprimisse seus rostos. Eu conhecia todos de algum lugar e não conhecia
ninguém.
Eu não estou reclamando.
Eu gosto da minha vida.
Na Avenida Principal, todos iam em direção ao
Grande Templo. Feito de ouro, marfim e metal retorcido. Mais alto que qualquer
prédio, maior que qualquer divindade. E seu soberano, que talvez estivesse morto,
talvez estivesse dormindo, agradecia a Deus.
Agradecia a Deus pela minha mente que nunca
seria sã novamente.
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